Histórias do Cacau
– Quem ama mulher casada é um sofredor suspeito... – Digo isso porque tem uma morando aqui no meu peito... Ô, meu filho, que coisa boa ver ...
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– Quem ama mulher casada é um sofredor suspeito...
– Digo isso porque tem uma morando aqui no meu peito... Ô, meu filho, que coisa boa ver você depois de tantos anos! Brigado, meu Deus!
– Bença, meu pai!
– Deus te abençoe, meu filho. Entra, entra. Me dá a mochila que eu carrego. Essa moça aí é tua mulher?
– É sim, senhor! Trouxe ela pra vocês conhecerem. Tá de barriga cheia, o senhor tá vendo? Ah, e mãinha, cadê?
– Foi na rua, volta perto do meio-dia. E tu, desde pequeno, sempre gostou dessa cantiga de vaquejada, né?
– Aprendi foi com o senhor. Escutava escondido no terreiro.
O calor do sol castigava quando a gente viu a cancela do sítio. Era a mesma de antes, madeira gasta, pintada só pelo tempo. Amanda desceu pra abrir, barriguda, com jeito de quem já era dona da terra. Eu fiquei olhando. Como é que deixei tanto tempo passar sem vir? Estacionei o carro debaixo de um jambo enorme, florido, que parecia rir da minha demora. A casa era no alto, sozinha, agarrada à ladeira. Subi devagar. Quando pus o pé no batente, vi meu pai. Estava na cozinha, mexendo no fogão.
– Quem ama mulher casada é um sofredor suspeito...
Foi o que saiu da minha boca, sem pensar. O velho virou pra trás, rápido, e respondeu no mesmo tom da cantiga. Quando me viu, parou. Ficou olhando, e os olhos dele já não cabiam mais de tanta água. Vinha vindo, as mãos trêmulas, os pés arrastados, e quando chegou, abraçou. Disse pra gente sentar, pediu licença à Amanda e passou a mão na barriga dela, que ia crescendo. "Que coisa bonita, meu Deus!", ele disse.
Conversa ia, conversa vinha, e o café foi esquentando. Tinha bolo de milho também, feito de véspera. A gente falava do passado, das roças, da vida. Depois de um tempo, deixei os dois lá, rindo no sofá, e fui pros fundos.
A porta da cozinha dava no terreiro, e além, na roça. Fazia tempo que não pisava naquele chão. O cheiro da terra ainda era o mesmo, forte, quase doce. Vi os pés de cacau, a roça engolindo o resto do sítio. Era como se o tempo não tivesse passado, mas o peito apertou. Vieram as lembranças. Meu pai e eu, naqueles tempos de Santa Rosa, finais de semana e férias. A gente no meio do mato, cortando cacau, cuidando de enxertia, e cantando moda de vaquejada pra espantar o cansaço. Seu Inácio, o dono da fazenda, já estava meio caído, mas a gente ainda acreditava que tudo podia dar certo.
Encostei no batente da porta, com o braço apoiado e o copo de café na outra mão. Olhava longe, pro mato que ia sumindo no horizonte. Não notei quando Amanda chegou. Senti foi os braços dela me envolvendo, o peso da barriga encostando nas minhas costas. Ela ficou ali, quieta, e depois sussurrou:
– Que olhar é esse, homem? Parece que tá querendo voltar no tempo.
Demorei pra responder. Continuava olhando pro mato. Disse só que eram lembranças, coisas de menino, de quando eu e meu pai éramos mais próximos. Ela ficou calada, mas senti o peso do olhar dela.
– E quando meu marido vai contar de quando era fazendeiro nas roças de cacau? – perguntou por fim, com aquele jeito doce de quem sabe mais do que diz.
Sorri, mas não respondi. A lembrança era boa demais pra dividir.
– Ô de casa, ajuda aqui, que eu tô é carregada demais!
Fomos até ela. Tirei a sacola da cabeça dela, peguei as das mãos e entrei com tudo na cozinha. Amanda veio atrás. Minha velha largou o corpo num abraço, as lágrimas descendo antes de qualquer palavra. Ficamos assim um tempo, eu sustentando aquele peso de saudade. Quando fomos pro sofá, a conversa recomeçou com café e bolo, mas minha mãe logo esqueceu que eu existia e virou-se inteira pra Amanda e a barriga que carregava.
Meu pai e eu, percebendo a folga, pegamos cada um um facão, calça de couro e bota. Ele colocou o boné surrado de sempre e saímos rumo à mata, como fazíamos quando eu era menino.
A rocinha de cacau parecia maior por dentro, as sombras espessas do mato abafando o calor. A trilha, engolida pelo tempo, precisava ser reaberta. Meu pai ia na frente, firme apesar dos anos, e depois de uns quinze minutos encontramos um pé de jaca que resistia ali, como um monumento. Subi nele com a prática de quem nunca esqueceu. Ele ficou embaixo, aparando as frutas que eu jogava. Pegou todas sem errar, o rosto com aquele sorriso que dizia: “Ainda sou bom nisso.”
Cortamos uma jaca ali mesmo e sentamos nas raízes grossas pra comer. O cheiro da fruta misturava-se ao da terra.
– Por que lembrou do velho agora? – perguntou ele, com uma banda de jaca na mão, o olhar perdido na roça.
– O senhor sabe que sempre lembro do senhor. Mas é a correria... muito trabalho. Tento ligar sempre que posso.
– Hum, não sabia que dar aula cansava tanto assim.
– Cansa, pai. E eu nem dou aula pra criança.
– Então dá aula pra adulto analfabeto, que nem eu?
– Não é bem isso... mas é parecido.
Ele riu, e seguimos comendo. Cada bago da jaca parecia guardar um pedaço da memória.
– Faz anos que não como dessa jaca – disse ele, saboreando devagar.
– Por quê?
– Ora, meu filho, a idade. Ou tu acha que eu ainda subo em árvore? A idade chega e acaba com a força do homem.
– Não diga isso, velho gagá...
Sentados ali, comecei a falar mais do meu trabalho em Salvador. Expliquei sobre literatura baiana, os livros que estudava, as aulas que dava. Ele não entendia tudo, mas ouvia com atenção, os olhos brilhando de orgulho. Meu pai nunca foi de estudos, mas tinha uma sabedoria que eu só fui perceber depois, lendo filósofos e escritores. Aquelas lições simples, ditas entre as roças de cacau, continham mais verdade do que muitos livros.
O sonho dele era outro. Queria que eu fosse advogado, engravatado, defendendo gente humilde. Mas meu caminho era outro, mais próximo das roças. Ele sabia disso, e talvez por isso tenha me feito estudar, mesmo em escola pública. Nunca quis que eu continuasse o trabalho dele, mas não podia impedir que a terra e as palavras se misturassem em mim.
Quando voltamos, já passava das quatro. Minha mãe e Amanda estavam tão próximas que pareciam velhas conhecidas. Na cozinha, o cheiro de torta espalhava-se, fazendo a casa parecer viva. Tiramos as calças de couro e as jogamos no banheiro, como era o costume.
– Nada de roupa de roça no cesto! – gritou minha mãe lá de dentro. – E olha lá se agora, com mulher e menino a caminho, não quebro essa "bassoura" nas tuas costas!
Rimos, meu pai e eu, como ríamos antes, nos dias de trabalho na Santa Rosa. Aquele dia, entre a roça e a casa, parecia ter juntado tudo: passado, presente e o que ainda vinha pela frente.
Eram umas sete e pouco da noite quando meu pai e eu fomos para a varanda com seu velho radinho a pilha. Em outros tempos, ouvíamos tantos jogos de futebol nas tardes de domingo. Hoje não era diferente, não era uma tarde de domingo, claro, mas, pra mais de sete horas de um sábado, não havia de faltar, naquela estação, um jogo de bola. Estava passando o Ba-Vi naquela noite. Quando saímos de Salvador horas antes, a cidade estava um alvoroço só.
– Pra mim, quem ganha esse jogo é o Bahia – disse meu velho enquanto mexia no rádio à procura da melhor posição pra ouvir a narração do evento. – O senhor acha? Vitória vem bem esse ano... – Vitória é freguês, rapaz, uma puta do Bahia. Olhe, no meu tempo de menino, o Vitória só ganhava do Bahia a cada dez anos.
A conversa sobre o Ba-Vi foi interrompida por minha mãe e minha mulher, que vinham em nossa direção. Mãinha achegou uma cadeira pra perto do meu pai e Amanda sentou no meu colo, aconchegando a cabeça em meu peito enquanto eu fazia carinho em sua barriga. Logo meu pai assuntou a falar: – Sabe o que falta agora? Uma fogueira, uma pinga e dois dedos de prosa na luz da lua. Se levantou de supetão e foi pros fundos da casa. Minha mãe correu atrás dele coçando a cabeça, imaginando o que meu pai iria aprontar.
– O que tá te preocupando, nêgo? Era pra você estar saltando de alegria com seus pais. – Não sei o que é. Eu tô bem, só um pouco cansado. Nada demais. Deve ter sido a viagem. Só isso! – Você tem certeza que é isso mesmo?
Sua pergunta ficou sem resposta. Logo saí do transe quando vi meu pai rindo à toa, trazendo consigo um fecho de lenha nas costas e uma garrafa de pinga na mão. – Hoje meu único filho voltou para casa, é dia pra comemorar – e parmiou o fecho de lenha no terreiro de chão batido. Logo fez uma fogueira malamanhada, pegou uma sacola plástica e acendeu um fogo tímido. As labaredas subiam crepitando e se perdendo no céu como eu me perdia em meus pensamentos. Da cozinha mainha gritou pedindo ajuda para Amanda. Ela se levantou do meu colo, beijou minha testa e disse que já voltava. Meu pai arredou as cadeiras pro meio do terreiro ao redor do fogo já virando o litro de cana na "goela". Me passou a garrafa e, sem pensar duas vezes, eu dei uma talagada firme, mas pretendia ficar por ali mesmo. Atrás de nós vinham minha mãe e minha mulher com a garrafa de café, o que sobrou da torta de mais cedo, uma toalha e alguns copos. Forrou o chão perto da fogueira, jogou tudo em cima, encostou as cadeiras, serviu o café e a torta e nos pegamos a prosear.
O Ba-Vi no rádio cedeu espaço às gargalhadas altas e sinceras. O foco da conversa naquela noite era o retorno do filho pródigo e sua amada. Mãinha, com um sorriso nostálgico, lembrou das travessuras da minha infância.
– Esse menino aí? Nunca foi santo. Na escola, só queria saber de jogar bola, beliscar os coleguinhas, morder e ficar de chamego com as professoras bonitinhas. E chorava quando dizia que não ia pra roça ver o pai. Ai, ai.
– Verdade isso, nêgo? – perguntou minha mulher, com a boca cheia de torta, tentando conter o riso.
– O quê? Oh, minha filha, ele deve tá santo hoje, com você, na cidade – reforçou minha mãe.
– A senhora falando assim parece que eu era um capetinha quando pequeno.
– Encapetado é até hoje. Não sei como vou cuidar de duas crianças quando Anahi nascer.
– Anahi? Esse é o nome da menina que vem aí? – perguntou mãinha, surpresa.
– Sim, sim. Anahi significa bela flor do céu em língua indígena.
– Pode falar o que for do meu filho, mas que ele sempre foi um homem retado, disso não tenha dúvidas, dona.
– É?
– O quê? Lembro de quando eu e esse homem nos embrenhávamos nas roças de cacau. Saíamos cedo, cinco em ponto, ele parecia gente grande.
– E ele acordava cedo assim sem reclamar? Em casa, pra levantar às oito, é um trabalho.
– Tinha dia que ele levantava primeiro e ia me chamar no quarto, né não, mulher? A gente aprontava o caco de farinha de carne seca e aprumava.
– É, disso nunca pude reclamar, desde cedo ele foi trabalhador.
– Meu sonho era ser como ele, trabalhador das sementes de ouro. Via meu velho naquela labuta desgraçada do cacau e queria ser igual a ele. Viver pra lida do cacau como ele. Mas o senhor nunca deixou.
– Eu sempre tive meus motivos pra isso. Ajudar aqui e acolá é uma coisa. Agora, viver disso... é uma história diferente, rapaz. Olha eu, com mais de setenta anos mexendo com isso, e o que ganhei?
– Histórias, meu pai. Histórias.
– Histórias? Rum, o que vocês chamam de semente do ouro, eu chamo de cabaça da desgraça, e o que vocês chamam de história, eu chamo de maldição. Isso sim!
Ao ouvir essas palavras, mainha se arrepiou e perguntou: "O que é isso, homem? Deixe de agonia". Amanda, ainda sentada no meu colo, também se arrepiou e apertou meu pescoço. E meu pai continuou:
– Olhe, dona moça, nesses mais de cinquenta anos de lida com cacau, já vi de tudo. De coisa boa a ruim, de alegrias a desgraças que nem todo homem suportaria ver. Olhe, minha filha, de Itabuna, Ilhéus, Wenceslau Guimarães, Ibirapitanga, Gandu, Teolândia, Uruçuca, Camamu, Itacaré, até o Rio Grande do Norte, Ceará. Em todos esses lugares tem um pé de cacau plantado ou cuidado por mim. Tô mentindo, mulher?
– Tá não, meu velho, mas para de beber. Já tá bom!
– Muito antes de conhecer essa mulher que vocês estão vendo aí, eu já estava pelo mundo das roças de cacau, labutando com tudo que é gente ruim.
– Mas, seu menino, me conta, como é dentro do cacau, das roças e tudo? Como funciona? – perguntou minha mulher.
– Olhe, dona, primeiro a gente escolhe um lugar na roça, que não seja muito fechado, pra ter espaço pros pés de cacau. Depois, planta as mudas. Em 180 a 200 dias, mais ou menos, o cacau dá a primeira safra. Depois, vêm os homens com podão colhendo as frutas. Deixam no chão pra outros homens com facão e panacum nas costas catando, cabaça por cabaça, e fazendo as rumas de cacau. Depois de tudo colhido e feito as rumas, você senta com a caixa própria pra quebrar e descaroçar o cacau. Os caroços passam por uma fermentação de vários dias antes de ir pras barcaças secar. Depois de secar, vai pro armazém e vira ouro, como teu marido disse. Isso sem contar as histórias que já vi nesses anos todos de cacau.
Minha mulher olhou para mim com um olhar que eu bem conhecia: admiração e curiosidade. Eu sabia, lá no fundo, que ela queria saber mais coisas, só estava com medo do que viria adiante. Mas, para variar, meu velho nem esperou, deu mais uma talagada na cachaça e sem titubear prosseguiu.
– Olhe, dona, eu vi o que foi o cacau pros lados dessas regiões. Trabalhei em fazenda com mais de cem cabeças, desde diarista a gerente de fazenda.
Minha mulher se ajeitou no meu colo e passou a prestar ainda mais atenção naquele senhor contador de histórias. Os olhos dela brilhavam a cada palavra do meu pai.
– Não duvido que o senhor já tenha visto de tudo nessas roças de cacau na sua época...
– Trabalhei numa fazenda onde era meeiro. Com a gente trabalhava todo tipo de peão: crente e macumbeiro, macho e viado. Quem acreditava só em Deus e quem não acreditava em nada. Até homem que vestia saia tinha com a gente. E na minha época viado também pegava no pesado, viu? Não era essas coisas de hoje em dia que faz unha e não pega peso. Não, os da minha época carregavam panacum e mais panacum de cacau no meio das roças. Quando chegava o final do dia, iam fazer os diabos deles lá no meio do mato. Isso não me é da conta.
– Devia ser uma briga, esse tanto de homem trabalhando juntos...
– Ô sim, com certeza. Tudo junto e misturado. Tudo pra trabalhar na lida com o maldito cacau.
Meu pai passou a mão na cabeça e coçou a barba, parecendo querer lembrar de alguma coisa, até voltar a falar.
– Pois é, minha filha, lembra que eu já te falei que vi de tudo nessas roças de cacau? Então pois é, nessa época eu tinha vinte e poucos anos e estava nessa fazenda há uns oito meses e coisa e tal. E junto com nós tinha um viado e tinha quem sabia que ele era viado mas não fazia nada, afinal de contas ninguém tinha nada a ver! E também esse viado muitas vezes prestava serviço à peãozada, se é que a moça me entende. Mas também tinha um homem mais velho, nunca esqueci a cara daquele sujeito; sou ruim de nome mas de feição essa cuca não esquece nunca. Pois é, esse homem não suportava esse rapaz. Ele vivia por ameaçar o coitado e tudo. Então, não sei como foi, mas esse moço e esse homem pegaram uma briga que até hoje não sei como aquilo aconteceu. Eu só sei que esse homem mais velho pegou o facão e lascou no ombro do moço. Mas o facão parecia espada; foi bater e arrancar a pá do outro fora. Esse viado caiu no chão, gritando de dor, pedindo por ajuda. E foi aí que eu vi a malvadeza que o ser humano pode fazer um com o outro... Esse homem caiu pra cima desse viado com esse facão e fez a pior desgraça que a senhora possa imaginar.
O olhar da minha mulher em meu colo passou de curiosidade e admiração para pavor e medo. Começou a tremer assustada, mas ainda assim perguntou:
– Mas tanta gente, ninguém fez nada?
– Ô dona, quem ia fazer? Além do mais nem tempo pra isso deu. Quando a gente viu, a desgraça tava feita. E quando ele saiu de cima do caboclo com facão dele ensanguentado saiu dizendo “essa raça tem que morrer tudo. Isso é a peste do mundo” coisa desse jeito aí. Depois ele se embrenhou no meio dos matos e ninguém mais deu por notícia do cabra.
Ouvi um silêncio quando meu pai terminou essa parte da história. Ouvia apenas o crepitar das chamas e o piar da coruja ao longe. Era quase uma da manhã quando meu pai continuou a contar suas histórias.
– Na minha época não, mas logo quando o cacau chegou na Bahia, muito antes de Ilhéus ser Ilhéus... Nessa época Ilhéus era só um povoado de casas e uma ruazinha. Vinha todo tipo de gente pra região: explorar as matas, fazer fazenda e plantar cacau. Por mais de vez tinha tocaia entre as árvores na calada da noite. Já queimaram até cartório pro lado de lá só pra perder os documentos, as escrituras dos donos das fazendas pra poder ter mais briga e guerra. Outra vez – isso era pra mais de 1970 e tanto – ali na região de Uruçuca tinha uma fazendona que só a peste. Naquela época o cacau ainda era cacau.
– Sim, meu pai, já chega dessas histórias de desgraça que o senhor viu nas fazendas; isso não existe mais hoje. Amanda tá assustada, grávida; mãinha com medo... Bora acabar com isso.
– Escuta... mas na minha época existia e existia muito! E outra: isso é história daquilo que tu tanto queria pra tua vida.
– Mas o que foi que tinha nessa fazenda de Uruçuca onde o senhor trabalhava? – perguntou minha mulher, tremendo de medo e frio.
– Amanda, para! Não vai fazer bem pra nossa filha as histórias do meu pai.
– Parar com o quê? Agora quero saber!
– Menina de coragem essa que tu arrumou... Pois é... nessa fazenda o dono ficava mais fora pra cuidar dos outros negócios da família e deixava a mulher na sede: uma galega alta; tinha uns peitões sabe? Um par de coxas que benza Deus; um rabo que os homens da fazenda tudo ficavam olhando... Na casa dos quarenta, bem verdade... mas quem olhava de fora nunca dizia... E os peões olhavam mesmo! Mas também ela dava lugar; a vagabunda gostava de palco; gostava de chamar atenção... Ia falar com os peões sem roupa de baixo pra dar lugar mesmo aos peões olharem...
– Apois, assunta. Os boatos que corriam entre os pés de cacau é que ela enfeitava a cabeça do patrão quando ele tava por fora. Eu mesmo nunca tinha visto e preferia assim continuar. Mas a conversa que rolava era essa. Aí, depois de uns meses, a produção de cacau aumentou e mais gente chegou pra fazenda, e, no meio dessas gente, um menino novo, jugava que se ele tivesse muito era seus 19 pra 20 anos. Mas era um menino forte, bonito, novo, mas um homão da porra.
Amanda se remexendo em meu colo interviu dizendo que por ai já dava pra ter uma ideia de como essa historia iria terminar. Todo mundo sabe o que iria acontecer, como iria acontecer, e só poderia ser em tragédia. Eu preferia não ouvir essas historias, mas minha mulher estava tão inerte e foi se levando. Minha mãe nunca cortou meu pai e eu só fiquei lá, com minha mulher em meu colo tentando se aquecer. E como ninguém o parava, meu pai foi seguindo contando suas historias do cacau. As desgraças que viu no cacau.
– Com menos de uma semana, continuou meu pai, esse menino deixou de banderar o cacau pra ser capacho da madame na sede da fazenda. Todo mundo achava estranho, e desconfiava. Mas peão bom é aquele que não dá pitaco em vida de patrão, não é mesmo? Pra mais de 3 meses, entre idas e vindas do patrão, o boato que corria era que o novato tava comendo a patroa.
– Misericórdia, disse minha mãe, já se apertando com frio
– E pelo boato que já corria dela, junto com a mudança de serviço dele, ninguém nunca duvidou. Demos conselhos a ele. Mas muito conselho pra mode ele sair daquele laço enquanto havia de tempo. Mas ele já tava grandão, se achando, até que a desgraça aconteceu.
Meu pai parou novamente no tempo e pensou, nessa já ia pra quase 3 horas, a lenha estava acabando, o café tinha acabado e a pinga dele já tinha ido quase toda. Ainda tinha uns pedaços de torta pra quem tivesse vontade de comer. Mas agora todos só tinham atenção para a historia do meu pai.
– Até que, numa madrugada –, continuou meu pai, o dono da fazendo chegou sem avisar. Parou o carro na cancela e foi bem devagar com mais dois capangas até a sede da fazenda sem fazer zoada nenhuma. Abriu a porta, entrou na casa e foi pro quarto onde pegou a mulher e o cabra nu, os dois dormindo, um por cima do outro.
– E o que aconteceu depois, perguntou Amanda…
– A menina gostou das histórias, disse meu pai em meio a risadas e à última golada na cachaça. O que aconteceu? Vou te contar menina, esses capangas pegaram esse menino, na mesma calada da noite e carregaram, a mando do patrão, até um pé de goiaba na frente da sede, no meio da fazenda. Amarraram as mãos dele, lá assim, no pé de goiaba e açoitaram o chicote nesse cabra até ele não aguentar mais. Quando acabaram de dar de chibatada nele, o melado vermelho escorria, aí o patrão foi lá e mandou preparar um banho de aguá e sal pra tacar nesse cabra.
– Avemaria! Que crueldade, disseram minha mãe e Amanda ao mesmo tempo.
– Era esse mundo que teu marido queria se meter. Deixa eu terminar pra mode nós entrar, que tá ficando tarde. Ai, das casa ao redor, só se escutava os gritos desse cabra. Aí, quando ele deu o banho de sal, o patrão tacou mel de cacau nele e deixou lá pendurado e foi deitar mais a mulher na mesma cama. Na manhã seguinte, bem cedo, o patrão convocou todos os peões da fazenda ao redor do moribundo que tava ali pendurado, e disse que aquele ali era pra ficar de exemplo para o próximo engraçadinho que se achasse no direito de comer a mulher do patrão. Depois de tudo isso, ele pegou o facão e mandou trazer a mulher, que não tinha um arranhão sequer no corpo, entregou o facão à mulher e, com o cabra ainda vivo, mandou que ela arrancasse fora o pau.
– E ela?
- E ela? Oxi, ela ia fazer o quê? Sem remorso nenhum e nem titubear, com o cabra ainda vivo, cepou pelo meio o pau do cara fora e deu na mão do marido. O morimbundo ainda gemia de dor. Tava vivo, mas não ia durar muito tempo. Depois o patrão fez a mulher abrir a boca dele e botar o pau dentro, na frente de todo mundo.
– Quanta crueldade
– É assim que funcionava as roças de cacau da minha época! Era nisso que o teu marido queria seguir! Agora vamos todos entrar que o frio apertou!
Aldair S. Borges