Episódios da Literatura e da História sobre o Antigo Egito
Deixemos de lado as pretensões por um momento. Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação geralmente se volta para pirâmides, sarcóf...
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Deixemos de lado as pretensões por um momento. Quando pensamos no Egito Antigo, nossa imaginação geralmente se volta para pirâmides, sarcófagos, a Esfinge e talvez a máscara de Tutancâmon. Alguns podem lembrar da faraó Hatshepsut, seu filho guerreiro-imperialista Tutmés III, o faraó herege Akhenaton e também Ramsés II, o mais poderoso faraó da história do Egito. É nesse ponto que nosso conhecimento geralmente começa a se dissipar. No entanto, o fato de o público em geral saber algo sobre essa antiga civilização é um testemunho das suas realizações extraordinárias. Mostre a alguém na rua uma foto da Máscara de Sargão, o primeiro grande conquistador da Mesopotâmia, e essa pessoa provavelmente não saberá o que está vendo. Apresente uma imagem do Zigurate de Ur, da mesma época, e a reação será semelhante. No entanto, uma imagem das pirâmides no planalto de Gizé, produzida no mesmo milênio, e a resposta será imediata: "Egito".
Os textos que examinaremos, uma vasta coleção de manuscritos e fragmentos de papiro conhecidos coletivamente como O Livro dos Mortos, revelam uma civilização profundamente religiosa, preocupada com a vida após a morte, com um panteão de divindades complexo e uma curiosa predileção por drenar fluidos corporais e envolver corpos em bandagens de linho.
Entretanto, não podemos limitar nossa compreensão do Egito Antigo apenas ao Livro dos Mortos, assumindo que uma civilização que perdurou por 3.000 anos se dedicou exclusivamente a esculpir sarcófagos, embalsamar gatos e venerar estátuas de chacais. O Egito Antigo é muito mais do que uma religiosidade mórbida e mausoléus pontiagudos no deserto. Em algum momento, no futuro, exploraremos alguns de seus contos populares. Apesar de todas as especulações em documentários, páginas da web e livros de história sobre o uso de escravos na construção das pirâmides, a movimentação dos blocos e as rampas de lama, é surpreendente quão pouco se fala sobre a ficção egípcia. Embora não tenhamos muitas histórias do Egito Antigo e elas não sejam tão fotogênicas quanto as pirâmides, as narrativas que possuímos são diversas, reveladoras e extremamente agradáveis de ler.
Lá para o final dessa nossa abordagem sobre o Egito Antigo, focaremos na literatura sapiencial, ou coleções de provérbios, dessa civilização. Estas coletâneas, que podem ter influenciado importantes livros do Antigo Testamento, nos fornecem uma visão sobre a vida cotidiana e a ética do cidadão comum egípcio. Assim, enquanto esta primeira conversa cobre a visão tradicional do Egito – monumental, megalítico e obcecado pela eternidade – as próximas abordagens explorarão a cultura dos outros 99% da população, predominantemente agrária e industriosa.
As pirâmides e os sarcófagos do Egito provavelmente sempre serão o símbolo definitivo desta antiga civilização. No entanto, acompanhe-me pelos próximos textos, e espero que você descubra que um reino que você considera austero, místico e estranho pode também ser acolhedor, perceptivo e familiar. Para desfazer a noção de que os antigos egípcios eram apenas construtores taciturnos de monumentos, o primeiro passo é entender sua religião, uma religião sintetizada no Livro dos Mortos.
Salvação Exclusiva e o Reino Antigo
Diga-me se isto lhe soa familiar: sua existência não é apenas material, mas também espiritual. À medida que você vive, suas ações e escolhas são registradas. No momento da sua morte, sua parte material perece, mas a espiritual continua. Após um breve período, sua alma é julgada conforme a retidão das suas ações na Terra. Se for considerada insuficiente, você estará em apuros. Caso contrário, você irá para um lugar celestial, onde tudo é limpo e luminoso, participa de um banquete e desfruta da companhia divina. Agora, quais adeptos de qual religião acreditam nisso?
É:
- a) Cristianismo,
- b) Islamismo,
- c) Antigo Egito a partir do Império Médio,
- d) Zoroastrismo, ou
- e) todas as opções acima?
Sim, é E. Todas as opções acima. Nos hieróglifos do antigo Egito, vemos as primeiras noções registradas de uma alma imortal, julgamento divino e uma vida após a morte dicotômica. A principal ideia que quero transmitir neste texto é a noção de julgamento divino. A promessa de que os piedosos e bons serão recompensados e os maus punidos é uma das partes mais atraentes das religiões mencionadas. Em todos os tempos, especialmente em épocas turbulentas, a crença no julgamento póstumo ajuda a lidar com o caos, a injustiça e a aleatoriedade dos acontecimentos que vivenciamos como espécie.
A crença no julgamento divino, registrada pela primeira vez no antigo Egito, foi possivelmente a força mais importante que impulsionou suas realizações na arquitetura, na ciência, na arte e na literatura. Mas esta ideia não surgiu do nada. As noções egípcias de julgamento divino evoluíram lentamente ao longo de centenas de anos. Embora hoje a noção de julgamento divino esteja difundida em todas as culturas, a civilização que primeiro a registrou começou com um conjunto de crenças muito diferente. Voltemos no tempo, ao Antigo Reino do Egito.
Por volta de 2.950 a.C., o Alto e o Baixo Egito foram unificados pela primeira vez. As inundações sazonais confiáveis do Nilo, que depositavam solo rico nas terras além das margens do rio, permitiram excelentes colheitas. O clima árido e a falta de recursos naturais na periferia do Nilo fizeram com que a civilização ribeirinha tivesse, durante o primeiro milênio, poucos vizinhos consideráveis que a ameaçassem. Se o cuneiforme manteve a civilização mesopotâmica culturalmente coesa por 2.500 anos, no antigo Egito, essa força foi o rio.
O que chamamos de Reino Antigo floresceu de cerca de 2.650 a 2.100 a.C. Este período, surpreendentemente precoce na história do Egito, produziu as maravilhas da necrópole de Gizé, perto do atual Cairo – as colossais pirâmides de Khufu e seus sucessores Khafre e Menkaure, e a Esfinge. Pense na pirâmide de Khufu, a estrutura artificial mais alta do mundo por 4.400 anos, até a conclusão da Torre Eiffel em 1889, e você terá uma ideia das crenças religiosas dos primeiros egípcios. É impossível não se impressionar com algumas estatísticas sobre essa pirâmide. Provavelmente foram necessárias 10.000 pessoas para construí-la. Abrange mais de cinco hectares e chega a mais de 146 metros de altura. Está quase perfeitamente orientada para o norte verdadeiro. A pirâmide de Khufu possui poços que atravessam toda a sua extensão – não para ventilação, como se pensava, mas porque esses poços estão alinhados com Sirius, na constelação de Órion, e outras estrelas do norte, que, como as coisas eternas, nunca se põem.
Hoje sabemos que um sistema de trabalhadores sazonais e escravos, juntamente com feitos maravilhosos de engenharia, produziu a pirâmide. Mas que tipo de sistema de crenças motivou sua construção? É aqui que podemos começar com a história da religião do Antigo Egito.
Durante a maior parte do Reino Antigo, acreditava-se que apenas a alma do Faraó era imortal. Portanto, seu embalsamamento, mumificação e sepultamento eram realizados conforme tradições rigorosas para que ele pudesse se juntar aos deuses na vida após a morte. No início do Reino Antigo, o que os egiptólogos chamam de “sacrifício de retentor” era uma prática comum. Djerr, um rei da Primeira Dinastia por volta de 2.900 a.C., foi encontrado com 318 seguidores, todos sacrificados para que pudessem continuar a servir seu rei após sua morte.
Imagine que, ao falecer, o ex-presidente do Brasil, Itamar Franco, todos os membros de seu gabinete fossem executados, juntamente com os congressistas que serviram durante seu mandato. E imagine que, por décadas, o Brasil gastasse a maior parte do seu PIB construindo para ele um monumento do tamanho da cidade de Campinas, para que, na sua morte, ele pudesse se juntar a outros seres celestiais, como Jesus, Maria, José, João Figueiredo e Getúlio Vargas, vivendo juntos por toda a eternidade entre as estrelas circumpolares. Perfeitamente razoável, não? Quanto ao resto de nós, seríamos uma espécie de lodo cósmico, significativo apenas por termos contribuído para a ascensão do nosso líder divino ao éter celestial. Que seres racionais poderiam resistir a um sistema de crenças tão coerente e autocrático?
A analogia pode não ser perfeita. É difícil acreditar que, ao longo de todo o Nilo, homens e mulheres passassem meio milênio cumprimentando-se com entusiasmo ao pensar em seu líder viajando para se juntar aos deuses. Mesmo nas condições despóticas de trabalho do planalto de Gizé em 2515 a.C., encontramos nomes de grupos de trabalho como “Os Bêbados do Rei”, sugerindo que os cidadãos do Reino Antigo eram tão capazes de alvoroço e escárnio quanto nós. Mesmo assim, a religião oficial do Estado, durante centenas de anos, sustentava que apenas um homem possuía uma alma imortal. Um ótimo negócio, se você for esse homem. E, para não pensarmos que a prática de divinizar líderes era tão exótica ou incomum, devemos lembrar que, após Júlio César, declarar que líderes falecidos haviam se juntado aos deuses tornou-se bastante comum durante o Império Romano.
Voltando ao norte da África, além de um monte de pilhas de rochas particularmente impressionantes, o que temos que registre a ideologia do Egito em meados do terceiro milênio? Bem, de um período próximo ao final do Reino Antigo, temos nossos primeiros textos egípcios antigos. Os “Textos das Pirâmides”, datados de 2300 a.C., recebem esse nome porque foram descobertos gravados em paredes e sarcófagos nas pirâmides de Saqqara, cerca de 25 quilômetros ao sul do Cairo, na margem oeste do Nilo. Esses textos consistem em feitiços e encantamentos destinados a salvaguardar os restos mortais do faraó e garantir sua ressureição para se juntar aos deuses. Os Textos das Pirâmides têm a distinção de serem os escritos religiosos mais antigos que conhecemos, embora sejam cronologicamente muito próximos dos hinos escritos pela filha de Sargão, Enheduanna, na Mesopotâmia.
A Democratização da Vida Após a Morte no Antigo Egito
Quanto tempo uma religião que beneficia e glorifica uma única pessoa, às custas de todas as outras, poderia realmente durar? No caso do Egito antigo, durou por seis dinastias, cerca de 800 anos. Algo culturalmente gigantesco aconteceu no Egito quando o Reino Antigo caiu na Idade Média do Bronze. No turbulento período entre 2125 e 1795 a.C., e depois ao longo do Reino Médio, que durou até 1630 a.C., surgiu a noção de que todas as pessoas tinham almas imortais. Após a morte, o ab (coração) de uma pessoa seria julgado pelos deuses. Se essa pessoa tivesse trabalhado em favor do caos e praticado más ações, ela seria devorada e aniquilada para sempre por um terrível monstro chamado Am-met. Se, pelo contrário, tivesse trabalhado em favor da ordem e da bondade, ela iria para campos férteis e belos, cheios de água corrente e da presença dos deuses, recebendo uma propriedade ali. A questão é: quem julgava?
Central neste período da história egípcia era a crença em um deus chamado Osíris. Assassinado e desmembrado por seu irmão perverso, Set, e depois reconstituído por sua irmã e esposa, Ísis, Osíris simbolizava o ciclo de morte e ressurreição que os egípcios acreditavam que todos passavam. Por volta de 2100 a.C., um segundo grupo de escritos egípcios, conhecido como “Textos dos Sarcófagos”, começou a filosofar sobre um lugar sombrio chamado Duat, o equivalente egípcio de Hades ou Sheol. No Duat, os mortos enfrentavam perigos e o julgamento de Osíris, junto com seu conselho, que frequentemente incluía Thoth, o escriba dos deuses, e Anúbis, a divindade com cabeça de chacal que pesava o coração de cada pessoa na balança.
Representações da cena do julgamento aparecem com frequência em artefatos egípcios antigos. De um lado da balança de Anúbis está o coração do falecido, uma espécie de registro condensado de todos os seus atos e pensamentos. Do outro lado, uma pena, simbolizando ma'at, talvez o conceito mais importante e governante do antigo Egito. Ma'at significava, em uma palavra, ordem. Uma ordem natural que regia o universo, definia os ritmos das inundações sazonais, movia o motor dos nascimentos e mortes, e colocava tudo em seu devido lugar, desde os faraós até os grãos de areia. Mais adiante, discutiremos em detalhes o que fazia com que o coração se equilibrasse com a pena de ma'at. Simplificando, ao se comportar com prudência, demonstrar bondade e autocontrole, um antigo egípcio poderia esperar que seu coração estivesse em harmonia com os princípios de ma'at no momento crucial de seu julgamento.
A ideia de que todos os egípcios poderiam ter seus feitos medidos pelos deuses emergiu entre 2100 e 1800 a.C. A imortalidade foi, assim, democratizada no início do Reino Médio, e os textos da época refletem isso. O egípcio médio acreditava que, com a conduta correta em vida, alguns feitiços e rituais bem cronometrados no momento da morte, alguns potes de óleo e comida, e talvez a companhia de alguns animais embalsamados, ele poderia ganhar a aprovação de Osíris e as recompensas de uma existência feliz após a morte. A crença na possibilidade de uma vida após a morte feliz perdurou durante a próxima grande transição política do país.
Os anos entre 1600 e 1000 a.C. viram outro período intermediário e depois a ascensão do Novo Reino. As dinastias do Novo Reino estavam centradas em Tebas, centenas de quilômetros ao sul do Cairo. Foi dentro da necrópole chamada Vale dos Reis que a tumba de Tutancâmon foi descoberta no outono de 1922. É também de Tebas do Novo Reino, ou Luxor dos dias modernos, na margem leste do Nilo, que temos o texto em que nos focaremos agora: O Livro dos Mortos.
Quando li O Livro dos Mortos pela primeira vez, utilizei a tradução de Sir Ernest Alfred Thompson Wallis Budge, editada por John Romer e publicada pela Penguin, que citarei a partir de agora. Sir Ernest Alfred Thompson Wallis Budge incluiu 244 páginas introdutórias antes de chegar ao próprio Livro dos Mortos. Talvez este tradutor esperasse que o leitor morresse de velhice ao ler os prefácios e estivesse em condições adequadas para apreciar o Livro dos Mortos. De qualquer forma, enquanto lia os prefácios, desejei um resumo conciso do Livro dos Mortos, sua origem e conteúdo, e nunca senti que consegui. Então, vou te dar um agora mesmo.
Entre 1600 e 100 a.C., os egípcios que podiam pagar eram enterrados com textos de feitiços e encantamentos, geralmente acompanhados de ilustrações, impressos em sarcófagos, papiros ou mortalhas de linho. No total, descobrimos 192 feitiços, ou "capítulos" do que chamamos de Livro Egípcio dos Mortos. Durante a maior parte de sua existência, o Livro dos Mortos foi uma coleção diversa e não padronizada desses feitiços ou capítulos, que em grande parte se acreditava ter sido escrita pelo deus escriba, Thoth. Se você fosse rico, obteria muitos deles com ilustrações luxuosas. Se fosse da classe média, obteria os feitiços mais necessários. Se fosse pobre, ficava sem sorte. Os hieróglifos em pergaminhos eram a especialidade dos escribas bem treinados, e os grandes livros estavam além da faixa de preço da maioria dos egípcios. A edição Penguin do livro agora contém 992 páginas. Imagine copiar isso com uma biblioteca de 2.000 caracteres de hieróglifos ornamentados, produzindo centenas de ilustrações de acompanhamento, tudo isso em juncos entrelaçados de uma planta. Se você pudesse fazer isso, gostaria de uma ampla compensação, pelo menos alguns barris de cerveja de cevada do Antigo Egito.
Assim, basicamente, isso descreve O Livro dos Mortos. Nós o temos em muitos pacotes e fragmentos, e é uma enciclopédia, completa com um número estonteante de deuses, espíritos, orações e rituais mágicos, capturando mais de três mil anos de crenças da civilização sobre a morte e a vida após a morte.
Os egípcios chamavam seus escritos funerários de "Os capítulos do surgimento durante o dia", baseados na ideia de que o espírito deixa o corpo no dia da morte, vagueia a noite toda e retorna ao corpo na manhã seguinte. Essa partida e retorno do círculo, semelhante à jornada noturna do deus sol Rá, exigia a preservação cuidadosa dos restos mortais da pessoa.
Não temos tempo para ler todos os 192 capítulos do texto mais famoso do Egito. Mesmo que o fizéssemos, penso que acharíamos sua repetitividade menos fascinante e seu politeísmo composto impenetrável. Vamos focar nos momentos mais importantes do livro e em alguns de seus principais emblemas e motivos. Acho que, no final dessa conversa, você terá uma compreensão decente de onde a noção extremamente importante do julgamento divino aparece pela primeira vez nos escritos da humanidade.
Antes de começarmos a ler este livro, há duas coisas a saber. Primeiro, a tradução de Budge é a mais influente literariamente, e é por isso que a utilizo. No entanto, Budge traduz para o inglês do século XVII, de modo que o livro soa como a Bíblia do Rei James. Ao citar a edição Penguin de 2008, modernizarei a prosa de Budge. A segunda coisa é um fato simples sobre a estrutura do livro em si. A maioria dos capítulos do livro contém o que chamamos de “rubricas”. Uma “rubrica” explica como um capítulo deve ser usado. Por exemplo, a rubrica do Capítulo 1 diz ao leitor que, se uma pessoa conhecer o texto do Capítulo 1 enquanto estiver viva e se o Capítulo 1 estiver estampado em seu caixão, ela será capaz de atravessar o submundo, encontrar sua morada no céu e desfrutar de todas as recompensas ali. As rubricas costumam ser muito específicas, explicando exatamente como os feitiços devem ser recitados para afastar corretamente o mal, a corrupção, a decadência e esse tipo de coisa.
Agora você sabe de onde veio O Livro dos Mortos, seu conteúdo básico e os fatos essenciais sobre sua estrutura. Vamos abri-lo e ver o que tem dentro.
Uma oração de abertura e cena de julgamento

O Livro dos Mortos começa com um hino ao deus sol Rá: "Você se levanta", entoa o hino. "Você renova sua juventude e se coloca no lugar onde estava ontem. Oh, jovem divino que se criou, não sou capaz de descrevê-lo. Você veio com seus diademas e fez o céu e a terra brilharem com seus raios de pura luz esmeralda." Rá, o deus sol, defende a ordem sagrada de Ma'at, enriquecendo a terra com sua jornada diária, maravilhosa e extraordinária.
Seguindo o hino a Rá, encontra-se um hino a Osíris, onde um suplicante reza para descer ao submundo e sair renovado com as bênçãos da grande divindade. Antes mesmo do primeiro capítulo de O Livro dos Mortos, aparece uma cena típica de julgamento.
Nessa cena, um humilde escriba ora por um julgamento justo, sendo levado ao imponente conselho dos deuses. As divindades egípcias Hathor, Hórus, Ísis, Néftis, Nut, Thoth, Anúbis e outros observam o mortal com atenção. Com as mãos estendidas e os dedos trêmulos, ele encara a figura intimidante de Anúbis, cujas mãos estão na balança. A cabeça de chacal do deus simboliza seu poder de decidir quais corpos sofrerão decomposição e quais serão preservados para sempre. Mas não é Anúbis que o escriba teme mais.
Atrás de Anúbis está Thoth, frequentemente chamado de “O Grande Deus” pelos egípcios. Thoth, com cabeça de íbis e um grande cocar que simboliza sua capacidade de julgar qualquer coisa, incluindo a duração das estações. Mesmo assim, não é Thoth quem causa mais medo ao mortal. Na escuridão do fundo da câmara está Am-met, o monstro conhecido como “O Devorador de Mortos”. Com cabeça de crocodilo e corpo de leão e hipopótamo, Am-met bate os beiços e olha com expectativa para Thoth quando o mortal entra na sala.
Anúbis pesa o coração do homem. Thoth pondera por um longo tempo, enquanto o Devorador de Mortos lambe os dentes ensanguentados na escuridão. Finalmente, Thoth pronuncia: "Não foi encontrada nenhuma maldade nele. Ele não desperdiçou as ofertas nos templos; não causou mal com suas ações; não proferiu más notícias enquanto esteve na terra." Os deuses anunciam coletivamente a decisão: "Ele não pecou. Ele não fez mal contra nós. Am-met não poderá prevalecer sobre ele. Oferendas de carne e entrada na presença do deus Osíris serão concedidas a ele, juntamente com uma propriedade eterna em Sekhet-hetepet." Com isso, o destino do mortal está selado; ele não será aniquilado pelo monstro Am-met, mas se juntará aos deuses em uma vida após a morte jubilosa.
Capítulo 64: Um Exemplo de Oração e Rubrica
Variações dessa cena estão presentes em todo o Livro dos Mortos. Os muitos aspirantes enterrados com seções do livro esperavam ser admitidos em Sekhet-hetepet, o “Campo dos Juncos”. Enquanto os faraós do Império Antigo retratavam a vida após a morte como um lugar elevado e cheio de estrelas radiantes, os egípcios dos Reinos Médio e Novo começaram a imaginar o céu como um local mais terreno, com lagos, colheitas, aragem, amor, disseminação de sementes, banquetes, roupas finas, banhos em água limpa e, claro, o deus Osíris.
O capítulo 64 do Livro dos Mortos é considerado um dos mais antigos da coleção, possivelmente datando da primeira dinastia. Nele, um orador suplica ao deus sol Rá, em uma devoção que se assemelha à beleza dos Salmos ou orações do Antigo Testamento. Cito detalhadamente a oração ao deus sol Rá do Capítulo 64:
"Alegrem-me seus caminhos e alarguem-me seus caminhos quando eu partir da terra para a vida nas regiões celestiais. Envie sua luz para mim, ó Alma desconhecida, pois sou [um] daqueles que estão prestes a entrar, e a fala divina está em [meus] ouvidos no... (submundo); deixe-me ser libertado e deixe-me estar seguro... Deixe-me viajar em paz; deixe-me passar pelo céu; deixe-me adorar o brilho do esplendor [que está] à minha vista; deixe-me voar alto como um pássaro para ver as companhias (?) dos Espíritos na presença de Rá dia após dia, que vivifica todo ser humano que caminha sobre a terra."
Esta petição a Rá, talvez com 4.000 anos de idade, é acompanhada por uma rubrica que explica seu uso. Como as rubricas acompanham quase todos os capítulos, vejamos a que acompanha a oração que você acabou de ler. Citarei detalhadamente a rubrica do Capítulo 64, para dar uma ideia de como são essas rubricas.
[Se este capítulo for conhecido] por um homem, ele sairá de dia e não será repelido em nenhum portão do submundo, seja ao entrar ou ao sair. Ele realizará todas as transformações que seu coração deseja e não morrerá; sua alma florescerá. Além disso, se ele conhecer este capítulo, será vitorioso na terra e no submundo, realizando todos os atos de um ser humano vivo. É uma grande proteção dada pelo deus. Este capítulo deve ser recitado por um homem cerimonialmente limpo e puro, que não tenha comido carne de animais ou peixes e que não tenha tido relações sexuais com mulheres.Essa é a rubrica deste capítulo. Ela esclarece o valor do capítulo e especifica as condições para sua recitação. Rubricas como esta estão presentes em todo o Livro dos Mortos, oferecendo instruções detalhadas sobre os objetos a serem colocados na tumba, o que queimar, misturas a serem preparadas, horários específicos para orações e outras orientações. No momento sagrado da morte, o falecido deve estar cercado apenas por aqueles ritualmente puros, que, como os sacerdotes e crentes no Livro do Levítico, abstiveram-se de sexo e de alimentos de origem animal por um período de tempo adequado.
A Confissão Negativa
Até agora, exploramos a estrutura essencial das noções de julgamento divino no antigo Egito, lemos uma oração e analisamos a rubrica que especifica como essa oração deve ser feita. Embora o capítulo que acabamos de examinar seja frequentemente considerado a parte mais antiga e típica de O Livro dos Mortos, não é o mais famoso. Essa honra pertence ao Capítulo 125, conhecido pelos egiptólogos como o capítulo da "Confissão Negativa". Este é um trabalho belamente escrito que tipifica de forma mais específica o sistema ético do antigo Egito, provavelmente datando dos reinados de Tutmés II e sua viúva Hatshepsut, em meados do século XV a.C.
O Capítulo 125, ou "Confissão Negativa", tem três partes. Na primeira, o orador descreve sua chegada ao submundo:
"Eu vim e entrei no lugar onde a acácia não cresce, onde a árvore cheia de folhas não existe e onde o solo não produz ervas nem grama. Entrei no lugar escondido... Estive na água do riacho e fiz oferendas de incenso... Entrei no Templo de Osíris e me vesti com suas roupas... Vi as coisas escondidas."Este é apenas o início da jornada do orador. O que se segue é a "confissão negativa" que dá nome ao capítulo. O orador entra na "sala do duplo Ma'at" e, em vez de confessar seus pecados, relata a uma assembleia de quarenta e dois deuses todas as ações erradas que ele não cometeu. As confissões são essencialmente um índice da moralidade egípcia antiga: o crente deve jurar que não "matou homem ou mulher", não desequilibrou a balança em transações comerciais, não mentiu, não roubou artefatos de templos, não roubou comida, não matou animais sagrados, não caluniou ninguém, não ficou indevidamente zangado, não cometeu adultério, não ameaçou ninguém, não ignorou conselhos justos, não fomentou conflitos, não fez outra pessoa chorar, não "cometeu atos de impureza, nem se deitou com homens" - e que não falou alto ou egoisticamente, não julgou precipitadamente nem poluiu a água. Após estas negações, ele faz um último apelo desesperado: "Não me deixe cair nas suas facas de matança... Deixe-me ir ter convosco, pois não cometi faltas, não pequei, não pratiquei o mal, não dei falso testemunho; portanto, nada de mal me será feito. Eu vivo do certo e da verdade... Dei pão ao faminto, água ao sedento, roupas ao nu, e um barco ao marinheiro náufrago."
Esse é o apelo final. Uma vez feitas essas sinceras confissões, os deuses deliberam, pesam o coração do homem e decidem se ele terá permissão para se juntar à companhia de Osíris no submundo.
O Capítulo 125, juntamente com sua rubrica, fornece instruções particularmente detalhadas. Este capítulo deve ser recitado por uma pessoa em seu leito de morte, após ela estar limpa e purificada, cuidadosamente vestida, com sandálias de couro branco em seus pés e os olhos pintados. Sacrifícios devem ser feitos e, após isso, uma telha deve ser removida e o texto do Capítulo 125 colocado nela. Assim, os descendentes do homem florescerão, e ele será presenteado com deliciosas comidas e bebidas na companhia dos deuses.
O Capítulo 125 e sua rubrica exemplificam as semelhanças e diferenças entre a religião egípcia antiga e as religiões abraâmicas, como o cristianismo e o islamismo. Ao ler O Livro dos Mortos, frequentemente nos deparamos com passagens que parecem pertencer aos Salmos da Bíblia ou à Família de Imran no Alcorão. No entanto, elementos únicos e distintamente egípcios surgem, relembrando-nos das particularidades dessa religião – seu politeísmo complexo, sua obsessão com o corpo físico do falecido e suas formulações sobre o ser multipartes da humanidade. Observando o que os monoteísmos subsequentes assimilaram ou deixaram de assimilar do sistema de crenças do Antigo Egito, podemos entender melhor O Livro dos Mortos e seu lugar significativo na história das religiões mundiais.
O Livro dos Mortos, a Bíblia e o Alcorão
Vamos começar considerando como a religião do Antigo Egito difere do Cristianismo e do Islã. O primeiro ponto é simples, mas importante: os antigos egípcios não acreditavam no inferno. Eles acreditavam que as almas rebeldes deveriam sofrer – seus corpos apodreceriam e seriam devorados pelo Devorador de Mortos, mas não de forma contínua e eterna. Esse não era um destino feliz, mas também não era o fogo perpétuo e o banho de sangue que aguardam os descrentes nos dois monoteísmos dominantes do mundo moderno.
O próximo ponto é mais complexo. Na progressão cronológica das religiões, desde o Antigo Egito até o Judaísmo e o Cristianismo, o corpo físico torna-se cada vez menos importante. A concepção dualista do Cristianismo, que vê a humanidade como composta de corpo e alma, é amplamente conhecida – a alma é imortal, o corpo é transitório; a alma tenta ser moral, mas o corpo é fraco. No Judaísmo, esse binário entre corpo e alma é menos acentuado.
No Livro de Levítico, as proibições contra tatuagens, ainda presentes na cultura judaica hoje, foram escritas para garantir que, no momento da ressurreição geral para o Povo Escolhido, Yahweh não se irritasse com tatuagens. Essas regras mostram que os primeiros judeus não tinham a teoria nitidamente dualista de corpo e alma que o Cristianismo desenvolveu posteriormente. Os egípcios, no entanto, tinham uma visão quase completamente diferente.
Eles acreditavam no khat, ou corpo físico, que poderia ser preservado por mumificação. Entre o corpo e a alma estava o ka, uma espécie de individualidade que ainda precisava comer e beber. O ba de uma pessoa, nem corpo nem alma, mas um pouco de ambos, transportava comida e bebida para o túmulo. O ab, ou coração, era a consciência moral, pesada na balança de Anúbis e Thoth. Havia também o khaibit, ou sombra, o khu, o componente etéreo de uma pessoa, o sekhem, a força vital, e o ren, o nome de uma pessoa, que precisava ser preservado para que ela continuasse existindo. A complexidade da individualidade egípcia antiga talvez explique por que essa visão não se perpetuou.
O Livro dos Mortos é mais estranho e teologicamente desconhecido quando seus escritores oram pela preservação do corpo após a morte. Um suplicante no Capítulo 154 resolve que, depois de morrer: “Não apodrecerei; meus intestinos não perecerão; não sofrerei ferimentos; meus olhos não apodrecerão; a forma do meu rosto não desaparecerá; meu ouvido não ficará surdo; minha cabeça não se separará do meu pescoço; minha língua não será levada; meu cabelo não será cortado; minhas sobrancelhas não serão raspadas; e nenhum dano funesto me sobrevirá.” Assim, embora cristãos e muçulmanos modernos compartilhem a crença central do antigo Egito de que uma pessoa será julgada por um poder superior no momento da morte, eles provavelmente estão menos preocupados com a vida eterna de suas sobrancelhas, língua ou intestinos.
Vimos algumas das diferenças entre O Livro dos Mortos e o pensamento religioso moderno. Agora, vamos explorar duas coisas que O Livro dos Mortos compartilha com a Bíblia e o Alcorão.
A primeira é a noção de renascimento no céu. Embora estudiosos tenham explorado os paralelos entre a história da ressurreição física de Osíris e a de Cristo nos Evangelhos, a noção mais geral de que se pode recomeçar em um lugar confortável onde todas as necessidades serão satisfeitas é quase universal nas religiões do mundo moderno. A ideia de transcender para um lugar melhor, seja ele chamado de céu, loka, jannah ou iluminação, é compartilhada pelas principais religiões modernas.
Mesmo assim, o Egito deu uma contribuição ainda mais importante à história religiosa: a noção de julgamento divino. Ir para o céu, ou mais precisamente para Sekhet-hetepet, era o resultado preferido do julgamento dos deuses egípcios. Mas o julgamento e seus resultados pressupõem algo muito maior e mais importante – mais importante ainda que os próprios deuses. Estou falando de ma'at – a palavra egípcia para ordem.
A ideia de julgamento divino e a noção de ma'at
A ideia de julgamento divino não pode funcionar eficazmente sem pressupor um conjunto de regras, regras universais que todas as pessoas compreendem instintivamente. A noção egípcia de ma'at é a primeira evidência que temos de que os humanos acreditam de forma concertada na existência de leis morais abstratas, além dos nossos sentidos físicos, mas ainda, em última análise, dentro do poder das nossas intuições. Quando alguém lhe diz que você sabe a diferença entre o certo e o errado, ela está presumindo que os antigos egípcios sabiam – que, em algum lugar, existe um código definitivo de leis. Você pode agir em harmonia com elas ou violá-las, mas, por ser humano, você tem consciência delas em algum nível profundo.
Estamos tão acostumados com a noção de certo e errado que é difícil imaginar a humanidade sem eles. A ideia de que nascemos com um conhecimento inato do bem e do mal, e de que todos os seres têm a escolha de agir de acordo com isso, não enfrentou oposição real até o final do século XVII, quando John Locke argumentou contra as ideias inatas e, em vez disso, escreveu que somos uma tábula rasa, moldada por nossos ambientes. A meio caminho entre o Livro dos Mortos do Antigo Egito e o início do Iluminismo, o filósofo ateniense Platão, em diálogos como Mênon e Teeteto, e mais notoriamente na República, argumentou que existia uma ordem absoluta além dos sentidos humanos, e que os melhores de nós podem compreender essa ordem.
São os antigos egípcios que nos levam à primeira das grandes questões filosóficas que exploraremos ao longo das postagens deste blog. E é essa: somos apenas seres materiais ou temos uma dimensão espiritual ou extra-sensorial? A primeira abordagem é moralmente relativista. A última pode, se assim o desejar, ser moralmente absolutista. Os antigos egípcios, seguidos por Platão, os profetas hebreus, os apóstolos cristãos e Maomé, acreditavam que o nível supremo da realidade era um reino de espíritos além do mundo frágil e enganoso dos nossos sentidos. Muitos filósofos do Antigo Mediterrâneo, como Demócrito, Leucipo, Epicuro e Lucrécio, seguidos pelos seus herdeiros no Iluminismo, acreditavam que existem apenas átomos e que todo o nosso conhecimento vem dos nossos sentidos. A concepção geral de idealismo versus materialismo surge repetidamente na literatura, e o esquema incrivelmente elaborado que os egípcios desenvolveram para conceber a individualidade mostra quão cuidadosamente nossa espécie considerava a questão, mesmo nas fases iniciais da civilização humana.
O Livro dos Mortos é gigantesco na literatura mundial. Foi tão fascinante para o modernista irlandês James Joyce que o encorajou a escrever sua obra final, Finnegans Wake. Embora seja estranho, repetitivo e muitas vezes impenetrável, O Livro dos Mortos nos diz que o Egito da Idade do Bronze foi o grande caldeirão onde muitos dos ingredientes da religião moderna foram preparados. E, embora a pirâmide de Khufu, com seus blocos, lados planos e portais astrológicos elegantes, tenha sido certamente uma grande conquista, ela é insignificante perto das noções de julgamento divino, salvação por boas obras, morte e ressurreição de um deus, o ser multipartes da humanidade e, acima de tudo, a ordem universal.
José Fagner Alves Santos