A Devolução de Daomé: Um Chamado à Reflexão
Se a arte tem o poder de nos conectar às nossas raízes e recontar histórias, o documentário Dahomey – disponível na plataforma Mubi – tr...
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Se a arte tem o poder de nos conectar às nossas raízes e recontar histórias, o documentário Dahomey – disponível na plataforma Mubi – transcende qualquer expectativa, nos convidando a revisitar o passado e enfrentar as complexidades do presente. Sob a direção sensível e criativa de Mati Diop, a narrativa nos transporta para uma jornada que ultrapassa o mero registro histórico: o retorno de 26 relíquias ao Benim, anteriormente saqueadas pelo colonialismo francês, torna-se um evento carregado de significados simbólicos e emocionais.
Logo de início, o documentário nos confronta com uma questão universal: o que significa, de fato, devolver algo que foi roubado? E mais, como se mede a restituição de objetos carregados de memória e espiritualidade em um mundo que ainda carrega as cicatrizes do colonialismo? Essas perguntas ecoam na voz dramatizada de Ghézo, antigo rei do Daomé, cujos estátuas, reduzida a um simples “número 26” no Museu do Quai Branly, ganha vida e voz no relato fictício escrito por Makenzy Orcel. Além de ser uma licença poética, essa escolha ousada humaniza o objeto, permitindo que ele conte sua própria história, clamando por um reencontro com seu povo.
A força do Daomé reside, em parte, na habilidade de capturar as pegadas entre o passado e o presente. Ao renunciar a explicações de especialistas na primeira metade, Diop dá espaço para que o espectador construa sua própria interpretação, percebendo o peso silencioso das relíquias enquanto elas retornam à terra que as originou. Essa ausência de narração tradicional nos permite contemplar, quase em reverência, as nuances desse retorno e os ecos da violência colonial que ainda persistem.
Mas é a segunda metade do filme que a narrativa ganha profundidade. A discussão entre os estudantes da Universidade de Abomey-Calavi expõe um mosaico de opiniões e sentimentos, desde a reunião até a frustração. É um debate que transcende o contexto de Benim e encontra eco em outras nações, como no Brasil, esses bens culturais permanecem espalhados por museus europeus. Aqui, Daomé provoca uma reflexão coletiva: devemos exigir tudo de volta ou considerar, ainda que com relutância, os pequenos passos que representam vitórias históricas?
O documentário se recusa a oferecer respostas simples. Ao invés disso, amplia as perguntas, convidando o público a pensar sobre temas como peças históricas, a ética da repatriação e a ressignificação da memória cultural. O dilema entre a gratidão pela devolução e a indignação pela retenção de milhares de outros artistas encapsula a ambiguidade que permeia todo o processo de restituição.
Convidamos você a assistir Dahomey não apenas como um registro cinematográfico premiado – vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim –, mas como uma oportunidade de reflexão profunda. Além de documentar a devolução de relíquias, o filme nos desafia a questionar os alicerces de nossa relação com o passado, os legados do colonialismo e as possibilidades de acessórios. Em um momento em que muitas culturas ao redor do mundo lutam para salvar suas histórias e heranças, o Daomé surge como um espelho, refletindo as dores, conquistas e desafios de reconstruir nossa própria identidade.
José Fagner Alves Santos